e aí? o que vamos fazer, agora?
todas as horas do relógio já passaram, todos os segundos já findaram.
não temos mais para onde ir.
passamos por todos os pontos finais.
o carro circulou por todos os bares mais sujos.
já jogamos todos os cigarros pela janela - junto com minhas calças, molhadas do banho que fiz questão de tomar, naquele mar desconhecido.
tem areia até dentro dos nossos ouvidos, mas não o suficiente pra nos impedir de ouvir o pneu cantar no asfalto ainda quente - como nós.
você me chama de "meu amor" e eu te chamo de "my boy". me sinto cafona, mas é assim mesmo que eu quero me sentir.
o outro par da sua bota está perdida em algum lugar do carro. queria ter forças pra procurar, mas prefiro deixar o cansaço tomar conto dos meus músculos.
nossos cabelos cobertos de poeira, mas insisto em manter todas as janelas abertas.
sinto algo doer, no canto da boca. olho pra sua e vejo algum vestígio de sangue.
vodka. "não dê vodka a um homem selvagem".
rio sozinha e você não se esforça em saber porque. talvez por já me conhecer a ponto de saber que é por alguma aventura.
por alguns momentos me concentro em sua boca, no resto de sangue, e na sua mão, que descansa em sua própria coxa.
"how beautiful is could a being be?"
tenho certeza que quando o filho do caetano veloso compôs essa música, ele fez pensando em você.
em sua barba, suas mãos repousando em sua própria coxa e na sua boca, com meu sangue e um cigarro no mesmo canto.
me lembro de quando você entrou no meu inferno pessoal. do quanto eu te quero desde sempre.
e você nunca me quis.
mas quando eu desisti de você, foi pra fazer você me querer. e você quis.
linhas certas, caminhos errados, sentimento desproporcional.
pra você é só aventura, enquanto pra mim, ter um ferimento na boca e coração, é como estar em um mar de rosas particular.
"gimme danger little stranger" nunca fez tanto sentido. sinto como se os deuses estivessem com os olhos em cima de nós e fossem nossos DJ's.
é destino. coincidência não existe. rio mais uma vez. e mais uma vez, ele me ignora.
o escuro da noite está começando a perder força. parece estar conectado aos meus reflexos.
você, depois de horas completamente calado, sussurra algo. não ouvi. pois ouvia a mim mesma.
"o que?", falei, com a voz ainda rouca.
ele diz:"nada não", enquanto aponta, pra uma linha dourada azulada, que nasce longe, longe.
"tá amanhecendo, my boy... e aí? o que vamos fazer, agora?"
ele acelera.
